Os alunos escrevem…

Quereria Pessoa que vos falasse da sua vida?

Fernando António Nogueira Pessoa, uma voz que sussurra inconscientemente no interior de qualquer Português ou até de qualquer discreto amante de palavras.
Já todos ouvimos frases como “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”, isso não podemos negar. Existem também aqueles a quem a vontade de abrir fronteira ao mundo paralelo de Pessoa os faz debruçarem-se atentamente sobre os seus inúmeros “eus”, desdobrados em personagens autênticas e distintas.
Aparentemente, acabamos por ter a sensação de que conhecemos como ninguém o mais falado poeta dos nossos tempos, no entanto, estamos certamente equivocados quando nos achamos na posse daquilo que é essencial para desvendar aquele homem franzino que percorre todas as ruas de Lisboa de chapéu na cabeça e de ar aparentemente simples e pacato.
Estudar Pessoa é estudar um mundo. Um número interminável de pessoas criadas por um só cérebro mítico, genialmente cansado de se cansar mas nunca poupado à inata necessidade de criar.
Nasceu a 1888, em Lisboa, e aí morreu, em 1935.
Um rapaz tímido com olhos vivos até ao detalhe mais pequeno, um estudante brilhante que triunfava através do uso da palavra, das letras.
O Poeta ganhava a vida a fazer traduções; a realidade é que, se me permitem a intervenção, se não era a escrita que lhe garantia um chão firme e a certeza de que pão não faltaria na mesa, então teria de ter qualquer outra profissão que lhe colocasse um papel e uma caneta entre os dedos, já provavelmente gastos e desfeitos de dar vida a folhas infindáveis. Só isso o mantinha são.
Apesar do seu caráter parcialmente discreto e pouco exuberante, Pessoa não passou despercebido. Foi um líder ativo da corrente modernista em Portugal na década de 1910. Publicou regularmente o seu trabalho em revistas, Orpheufoi uma das qure o poeta ajudou a fundar e dirigir, acompanhado do seu amigo Mário de Sá Carneiro .
O poeta passou os últimos quinze anos da sua vida em Campo de Ourique na Rua Coelho da Rocha onde hoje, em sua honra, está instalada a casa-museu Fernando Pessoa.
Foi nessa casa que fez surgir um imenso e variado universo literário, e na qual passava horas seguidas em frente à sua secretária de pé alto a que quase gosto de chamar altar. Todos os seus textos (frutos de devaneios criativos impossíveis de recriar), eram guardados numa grande arca que compreende mais de 25 mil folhas com todo o tipo de conteúdo.Poesias, cartas astrológicas, traduções, textos políticos e poemas.
Pessoa sim era um escritor na verdadeira aceção da palavra , era-o e pronto. Diria até que até hoje não houve nenhum que o fizesse de maneira tão compulsiva, exaustiva e ao mesmo tempo tão pura e genuína como ele o fez
O homem dos vários rostos escrevia onde tivesse de ser, fosse em blocos de notas, talões, versos de cartas, panfletos ou margens de criações antigas.
Criou irreais personagens que de forma real apareciam protagonizando inúmeros textos e poemas. Estes heterónimos criados desde cedo por Pessoa possuíam, tal como qualquer um de nós, biografias, características físicas, personalidades, visões políticas e atividades literárias muito particulares. .
Hoje, passados mais de oitenta anos da data da sua morte, o seu vasto mundo literário não foi ainda totalmente inventariado pelos estudiosos que dedicam a vida na procura incansável da descoberta do turbilhão que foi Pessoa.
As suas últimas palavras foram escritas em Inglês.“ I know not what tomorrow will bring”.A verdade é que o próprio Pessoa ortónimo se descreve como heterónimo de si mesmo. Desta maneira, sinto uma impotência que me é inconscientemente ditada  pelo poeta e que me faz sentir desmerecedora de o caraterizar, não ousando desrespeitar.
Tal como revela num poema de Caeiro, “Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,/Não há nada mais simples./Tem só duas datas- a da minha nascença e a da minha morte./Entre uma e outra coisa, todos os dias são meus.”Ao ouvir palavras como estas, sinto que com ele devia colaborar e escrever apenas 1888/1935 por todas as vezes que me pedissem trabalhos como este. Daqui para a frente, sempre que o fizer não será por rebeldia ou desleixo, será apenas porque respeito religiosamente as palavras do homem das várias faces.
Se tenho diante de mim um número interminável de obras por explorar, porque hei de preocupar-me com o nome dos seus familiares?

Carolina Milhanas, 12º H

No centenário de Sophia: recordemos o poema “Praia”

Na luz oscilam os múltiplos navios
Caminho ao longo dos oceanos frios

As ondas desenrolam os seus braços
E brancas tombam de bruços

A praia é longa e lisa sob o vento
Saturada de espaços e maresia

E para trás de mim fica o murmúrio
Das ondas enroladas como búzios.

Sophia de Mello Breyer Andresen

Os “Champs” do Pedro Nunes

É com muito orgulho que o Nónio Blogue transmite a seguinte informação, referente a prestação do  Luís Ferreira e da Rita Rebelo, no Campeonato de Europa,
Luís Ferreira e Rita Rebelo vencem a PRATA na Competição Europeia por Grupos de Idades.

O par misto português do Escalão 11-16 alcançou, no exercício final de Dinâmico, os 27.350 pontos, mostrando o grande trabalho que vieram a desenvolver durante o ano.
Os lusos ficaram a dividir o pódio com o par Isrealita, que sai vencedor e o par britânico que leva o Bronze.

Muitos parabéns, Portugal!

E muitos parabéns aos “Champs”!

Mais um desafio do nosso Consultório Linguístico

DESAFIO DA SEMANA

De 23 a 28 de outubro de 2019

Despensa e/ou Dispensa? Inclusivé e/ou Inclusive?

Participa! Envia a tua resposta para clinguistico.espn@gmail.com.ORGANIZAÇÃO DO DEPARTAMENTO DE PORTUGUÊS E LATIM

A menina que existia – Prémio do nosso concurso literário António Gedeão

2.º escalão Conto – 1.º prémio. Madalena Morais, 10.º F, n.º 32

Mais uma vez o sol perfura lentamente a linha do horizonte. Milhares de vidas concretizam mais uma etapa e aguardam, pacientemente, pelo desafio seguinte. No entanto, deparamo-nos com uma menina de caracóis dourados, que brilham quando tocados por um raio de sol, sentada, tranquilamente, no seu jardim, com um olhar distante. Curiosamente, esta menina não aguarda pelo dia seguinte. Apenas deseja que aquele dia nunca acabe. Que nada chegue ao fim, nem que nada tenha um novo começo. Será o medo? A ideia do desconhecido será assim tão aterrorizante quando vista pelos olhos, que se inundam com um olhar quase tão profundo como o oceano? Será o receio da solidão? De mais uma vez se encontrar sozinha num caminho desconhecido? Ou será falta de coragem para embarcar nessa jornada, de se deixar levar pelo vento, de ser tocada pelas folhas e de se deixar encantar pelo poder do sol e pela tranquilidade da lua, que é docemente refletida no límpido riacho, que nunca se cansa de correr. Ou será, então, a saudade, que invade o pequeno corpo da frágil menina? Saudade de todos aqueles que deixará para trás, em nome de novos amores, novas paixões. Tanta saudade em nome da mudança. O que torna tão curiosa esta perplexidade com que a menina de caracóis dourados, que se assemelham a barras de ouro, não apenas pela sua cor, mas também pela sua pureza, encara a mudança é o facto desta ser inevitável. E mesmo apesar de estar ciente dessa condição que lhe é imposta enquanto ser humano, ela resiste, ferozmente, a esta mudança, não se deixa conformar como todos os adultos parecem fazer. Será isto ingenuidade ou ousadia? Será esta menina de caracóis dourados ingénua por acreditar que não tem de existir mudança, por considerar melhor ficar para sempre presa na mesma realidade? Ou será ousada, por acreditar que ela conseguirá contrariar a ordem natural da vida, por lutar com todas as suas forças contra a mudança, apenas pelo simples facto de a considerar desnecessária ou até injusta. Ou será apenas pura ignorância, por conhecer ainda tão pouco este mundo, por ter vivido pouco e assumir que detém toda a sabedoria e conhecimento do mundo? Pelo facto de desconhecer realidades em que tudo o que se deseja é seguir em frente, começar de novo, ou até mesmo realidades em que a única solução é aceitar a mudança. Tudo pelo simples facto de que esta é a nossa realidade. Ao acompanhar a lenta e saudosa despedida do sol, que apenas voltará a encontrar a linha do horizonte dentro de algumas horas, os olhos da menina dos caracóis dourados cruzam-se com outro olhar. Um olhar que lhe é desconhecido. Um olhar que espelha um sentimento intrigante e perturbador. Os seus olhos encaram, de uma forma misteriosa, a silhueta de um homem que se encontra sentado no seu alpendre, à espera que a água ferva, enquanto respira vagarosamente, aproveitando cada expiração como se fosse a última. Aos olhos da menina havia algo de misterioso naquele olhar. Era um olhar perdido, exausto, um olhar cego, coberto por memórias perdidas e suspiros saudosos, inundado de sentimentos que não o parecem deixar respirar folgadamente. É visível uma inquietante serenidade naquela figura tão enigmática. Esta postura deixava uma sensação de concretização e de uma certa conformidade, como se o velho homem se sentisse concretizado com a sua vida, como se sentisse que não havia mais nada que pudesse fazer senão continuar a reviver aquelas memórias longínquas que agora não passavam disso mesmo: memórias. O que levaria a esta conformidade? Esta era a questão que a menina colocava. Como é que se chegava àquele ponto? Em que momento da vida é que se perdia a vontade de absorver cada segundo, de correr o mundo, conhecer novas pessoas, viver momentos indescritíveis, momentos que para sempre habitariam num único lugar: na sua memória. Como seria possível desejar que aquele dia acabasse, sem nunca ansiar sequer a chegada de outro? Por entre tantas ideias e questões, a pequena menina nem se apercebera de que outros olhos haviam pousado nela, olhos cansados, não por terem vivido demasiado tempo, mas por lhes faltar tempo para viver. A apressada mulher, que havia parado num sinal de trânsito, observava a menina de caracóis dourados enquanto esboçava um sorriso meigo e desafogado, com um subtil suspiro, com uma pequena pitada de inveja. Por segundos, o mundo da mulher apressada parou. Por segundos, a única coisa no mundo que importava era aquela pequena menina e a sua inocência, a sua naturalidade. A mulher é invadida por um sentimento agridoce. Por um lado, sentia felicidade por presenciar um momento tão puro como a natureza: uma simples menina parada, a contemplar o pôr-do-sol, a sentir a leve e quente brisa de verão nas suas faces rosadas, sem pensar demasiado, sem preocupações, sem receios ou expectativas. Uma simples menina a existir. Mas despertara dentro da alma da mulher um sentimento de inveja e saudade. Como é possível dois sentimentos tão contraditórios coexistirem? A inveja fazia-se ouvir pelo facto da mulher desejar ter tempo para apenas existir. Existir. Sem pressas, sem prazos, sem atividades ou planos. Apenas existir. Ela e a natureza a contemplarem-se uma à outra. Surge ainda a saudade. Saudade dos tempos, agora distantes, em que teve tempo para existir, onde não era consumida por deveres profissionais, por prazos, pela pressa, onde a única coisa planeada era fazer o que quer que lhe trouxesse felicidade. E o remorso invade a alma sonhadora presa num corpo cansado. Remorso por não ter apreciado cada segundo daqueles momentos. Por ter menosprezado a sua beleza e o seu valor. Por ter desejado o futuro. Quão intrigante é a vida: desde pequena a desejar a vida daqueles que admirava e agora tem o simples desejo de regressar aos tempos em que tudo era mais fácil. Onde a única preocupação era qual roupa usar. Onde a única indecisão era com que brinquedo iria brincar, e onde a única ambição era desejar que que o fim daquele dia nunca chegasse. Onde o único desejo era que o sol nunca se chegasse a despedir da subtil linha do horizonte. Mas, eventualmente, o sinal fica verde. E a água acaba por ferver. E o mundo retoma o seu ritmo alucinante, deixando a menina de caracóis novamente sozinha, sentada, tranquilamente, no seu jardim, agora na companhia da lua.

A Luz do Começo – Prémio do nosso concurso literário António Gedeão

Conto – 1.º escalão – Menção honrosa Maria Francisca Costa, n.º 14, 8.º A

Algures, no utópico lugar onde se encontrara a inerte figura, houvera um rei. Rei esse que governara grande parte daquilo que não se conhecia. Outrora houvera cores. Não apenas os tons mórbidos do contemporâneo. Não nego a existência de cinzento – unicamente afirmo que a mais melancólica cor fora, mesmo que por pouco tempo, algo declarando a perfeita harmonia de uma tal era. Certa vez, além da massiva, mas deslumbrante floresta de papoilas, feita de luz do sol, nasceu algo de uma distinção memorável, cuja beleza não era, de facto, igual. Mas não era, propriamente, algo melhor. Até certos indivíduos se haviam perguntado se aquilo os beneficiaria. Na altura, os escassos conhecimentos acerca daquele mundo não ajudaram. Poucos se atreveram a imaginar o que iria acontecer posteriormente. Era, de tal forma, uma obscura verdade, que a reflexão passara a ser guardada numa espécie de baú, trancado por mil e uma chaves. Ainda hoje, ninguém sabe, ao certo, o motivo da descoberta de tão desinteressante objeto. Porém, certamente que aquilo deixara de ser considerado fútil. De tal modo foi drástica a mudança, que o medo ascendeu a seu trono, tal como se Hades tivesse, alguma vez, existido. Dias antes, a tristeza ter-se-ia apoderado de todos se não fosse o rei. Este não era, certamente um rei qualquer. Era como uma metáfora encarnando a forma humana, trazida por uma força sobrenatural. No entanto, exercendo o mistério que é a modéstia de tal mente, afirmara ser, como muitos dizem – «normal». Todavia, esta palavra, pronunciada por tão ilustre figura, não significava, exatamente, «dentro da norma». Como ser insignificante que sou, nunca terei qualquer hipótese de, um dia, conseguir desvendar o que aquela palavra, aparentemente tão comum, simbolizava. 2.º escalão Conto – 1.º prémio. Madalena Morais, 10.º F, n.º 32 A menina que existia Mais uma vez o sol perfura lentamente a linha do horizonte. Milhares de vidas concretizam mais uma etapa e aguardam, pacientemente, pelo desafio seguinte. No entanto, deparamo-nos com uma menina de caracóis dourados, que brilham quando tocados por um raio de sol, sentada, tranquilamente, no seu jardim, com um olhar distante. Curiosamente, esta menina não aguarda pelo dia seguinte. Apenas deseja que aquele dia nunca acabe. Que nada chegue ao fim, nem que nada tenha um novo começo. Será o medo? A ideia do desconhecido será assim tão aterrorizante quando vista pelos olhos, que se inundam com um olhar quase tão profundo como o oceano? Será o receio da solidão? De mais uma vez se encontrar sozinha num caminho desconhecido? Ou será falta de coragem para embarcar nessa jornada, de se deixar levar pelo vento, de ser tocada pelas folhas e de se deixar encantar pelo poder do sol e pela tranquilidade da lua, que é docemente refletida no límpido riacho, que nunca se cansa de correr. Ou será, então, a saudade, que invade o pequeno corpo da frágil menina? Saudade de todos aqueles que deixará para trás, em nome de novos amores, novas paixões. Tanta saudade em nome da mudança. O que torna tão curiosa esta perplexidade com que a menina de caracóis dourados, que se assemelham a barras de ouro, não apenas pela sua cor, mas também pela sua pureza, encara a mudança é o facto desta ser inevitável. E mesmo apesar de estar ciente dessa condição que lhe é imposta enquanto ser humano, ela resiste, ferozmente, a esta mudança, não se deixa conformar como todos os adultos parecem fazer. Será isto ingenuidade ou ousadia? Será esta menina de caracóis dourados ingénua por acreditar que não tem de existir mudança, por considerar melhor ficar para sempre presa na mesma realidade? Ou será ousada, por acreditar que ela conseguirá contrariar a ordem natural da vida, por lutar com todas as suas forças contra a mudança, apenas pelo simples facto de a considerar desnecessária ou até injusta. Ou será apenas pura ignorância, por conhecer ainda tão pouco este mundo, por ter vivido pouco e assumir que detém toda a sabedoria e conhecimento do mundo? Pelo facto de desconhecer realidades em que tudo o que se deseja é seguir em frente, começar de novo, ou até mesmo realidades em que a única solução é aceitar a mudança. Tudo pelo simples facto de que esta é a nossa realidade. Ao acompanhar a lenta e saudosa despedida do sol, que apenas voltará a encontrar a linha do horizonte dentro de algumas horas, os olhos da menina dos caracóis dourados cruzam-se com outro olhar. Um olhar que lhe é desconhecido. Um olhar que espelha um sentimento intrigante e perturbador. Os seus olhos encaram, de uma forma misteriosa, a silhueta de um homem que se encontra sentado no seu alpendre, à espera que a água ferva, enquanto respira vagarosamente, aproveitando cada expiração como se fosse a última. Aos olhos da menina havia algo de misterioso naquele olhar. Era um olhar perdido, exausto, um olhar cego, coberto por memórias perdidas e suspiros saudosos, inundado de sentimentos que não o parecem deixar respirar folgadamente. É visível uma inquietante serenidade naquela figura tão enigmática. Esta postura deixava uma sensação de concretização e de uma certa conformidade, como se o velho homem se sentisse concretizado com a sua vida, como se sentisse que não havia mais nada que pudesse fazer senão continuar a reviver aquelas memórias longínquas que agora não passavam disso mesmo: memórias. O que levaria a esta conformidade? Esta era a questão que a menina colocava. Como é que se chegava àquele ponto? Em que momento da vida é que se perdia a vontade de absorver cada segundo, de correr o mundo, conhecer novas pessoas, viver momentos indescritíveis, momentos que para sempre habitariam num único lugar: na sua memória. Como seria possível desejar que aquele dia acabasse, sem nunca ansiar sequer a chegada de outro? Por entre tantas ideias e questões, a pequena menina nem se apercebera de que outros olhos haviam pousado nela, olhos cansados, não por terem vivido demasiado tempo, mas por lhes faltar tempo para viver. A apressada mulher, que havia parado num sinal de trânsito, observava a menina de caracóis dourados enquanto esboçava um sorriso meigo e desafogado, com um subtil suspiro, com uma pequena pitada de inveja. Por segundos, o mundo da mulher apressada parou. Por segundos, a única coisa no mundo que importava era aquela pequena menina e a sua inocência, a sua naturalidade. A mulher é invadida por um sentimento agridoce. Por um lado, sentia felicidade por presenciar um momento tão puro como a natureza: uma simples menina parada, a contemplar o pôr-do-sol, a sentir a leve e quente brisa de verão nas suas faces rosadas, sem pensar demasiado, sem preocupações, sem receios ou expectativas. Uma simples menina a existir. Mas despertara dentro da alma da mulher um sentimento de inveja e saudade. Como é possível dois sentimentos tão contraditórios coexistirem? A inveja fazia-se ouvir pelo facto da mulher desejar ter tempo para apenas existir. Existir. Sem pressas, sem prazos, sem atividades ou planos. Apenas existir. Ela e a natureza a contemplarem-se uma à outra. Surge ainda a saudade. Saudade dos tempos, agora distantes, em que teve tempo para existir, onde não era consumida por deveres profissionais, por prazos, pela pressa, onde a única coisa planeada era fazer o que quer que lhe trouxesse felicidade. E o remorso invade a alma sonhadora presa num corpo cansado. Remorso por não ter apreciado cada segundo daqueles momentos. Por ter menosprezado a sua beleza e o seu valor. Por ter desejado o futuro. Quão intrigante é a vida: desde pequena a desejar a vida daqueles que admirava e agora tem o simples desejo de regressar aos tempos em que tudo era mais fácil. Onde a única preocupação era qual roupa usar. Onde a única indecisão era com que brinquedo iria brincar, e onde a única ambição era desejar que que o fim daquele dia nunca chegasse. Onde o único desejo era que o sol nunca se chegasse a despedir da subtil linha do horizonte. Mas, eventualmente, o sinal fica verde. E a água acaba por ferver. E o mundo retoma o seu ritmo alucinante, deixando a menina de caracóis novamente sozinha, sentada, tranquilamente, no seu jardim, agora na companhia da lua.