PELA FELICIDADE

Por Carlos Grosso, professor de Matemática

Um dia, estávamos em setembro, a começar o ano letivo de 2016/2017, resolvi perguntar aos meus alunos do 9.º ano e do 12.º ano qual a diferença entre dois dos grandes objetivos de andar na escola: a alegria e a felicidade.

Das muitas intervenções dos alunos, deu para perceber que, para eles, aqueles conceitos estavam intimamente ligados, havendo até muitos alunos que não faziam qualquer distinção entre um e outro. A sobreposição, a interseção entre eles era absolutamente maior que qualquer coisa que os diferenciasse.

Após meia hora de debate sobre o tema, entreguei uma folha de papel a cada um e pedi para fazerem uma breve composição sobre as diferenças entre a alegria e a felicidade.

Aqui deixo alguns recortes dessas composições:

9.º ano:

  • A alegria é mais difícil de ocultar. A felicidade é mais difícil de alcançar.
  • A felicidade é algo que se vai ganhando ao longo da vida com as nossas experiências, que podem ser alegres ou tristes.
  • A alegria, ao contrário da felicidade, é uma sensação que não necessita de grande esforço.
  • Por vezes, a alegria é como uma falsa felicidade.
  • A felicidade de uma pessoa que subiu de cargo pelo seu próprio esforço é muito maior do que a felicidade de uma pessoa que tenha sido promovida por suborno ou por laços familiares.
  • Há quem esconda a infelicidade atrás de uma absurda alegria sem motivo.
  • À alegria aplica-se o verbo estar; à felicidade, o verbo ser.

12.º ano:

  • A alegria é um sentimento leve e breve. A felicidade é o que sinto quando algo de bom me acontece numa área que realmente se apresenta como fundamental para a minha sanidade e equilíbrio mental.
  • O procurar ser feliz está cada vez mais a cair em desuso, porque as pessoas se preocupam mais com pequenos prazeres momentâneos.
  • A felicidade é uma alegria que vem do coração.
  • A alegria vive-se num certo momento, num período de tempo. Por sua vez, a felicidade transmite um sentimento constante, que mora dentro da pessoa e que se mantém mais tempo que a alegria.
  • Ambos os sentimentos são satisfatórios, apesar de a felicidade ter mais impacto do que a alegria.
  • A alegria e a felicidade são sentimentos que transmitem ambos impressões positivas, mas são completamente diferentes.
  • A felicidade é mais ampla e abrangente que a alegria; no entanto, ambas têm um grande peso na minha vida e igual importância.
  • A alegria e a felicidade são sentimentos muito semelhantes e estão muito presentes no nosso dia a dia.
  • A felicidade é mais um estado interior e a alegria é mais exterior.
  • A felicidade é uma alegria eterna.

Efetivamente, a alegria é um estado de espírito que muitos de nós atingem com grande facilidade. Basta uma anedota, basta uma vitória do nosso clube preferido, bastam dois ou três copos com amigos, uma música encantadora ou até assistir a uma, mesmo que humilhante, praxe académica. Enquanto a felicidade parece ser algo que está em permanente processo de construção, sempre inacabado, sempre incompleto. Talvez por isso, porque a felicidade seja algo que não se atinge completamente, parece que nos dispomos a investir mais na procura de momentos de alegria do que na construção de situações que contribuam decisivamente para ir edificando um estado de espírito que nos aproxime da felicidade. Desenvolvemos a ideia de que, como a felicidade é, no seu estado puro, inatingível, não vale a pena preocuparmo-nos com ela, pois a alegria é um razoável substituto, de fácil alcance e muito compensador, pelo menos aparentemente.

A escola, do ponto de vista da aquisição e construção de conhecimentos ou na perspetiva de ser um estádio intermédio que nos permitirá frequentar o curso superior que mais desejamos, pode ser encarada como algo onde devemos investir pela construção da nossa felicidade. Naturalmente que, ao longo do nosso percurso escolar, podemos e devemos ter muitos momentos de alegria. A alegria é muito agradável, a alegria é preciosa, a alegria é fundamental. Mas, sobretudo no que diz respeito às aulas, que quase sempre envolvem conjuntos com cerca de três dezenas de alunos, muitos dos quais com grande disposição para a brincadeira, a principal finalidade das aulas não pode ser proporcionar-lhes momentos de alegria. É muito natural e desejável que isso possa acontecer em algumas ocasiões, mas a orientação principal deve ser a da transmissão e aquisição dos conhecimentos que nos proporcionem uma boa preparação para enfrentar os estudos futuros e a vida em geral, tanto nos aspetos profissionais como nos aspetos relacionais, privados e pessoais. E o sucesso nos estudos e na vida pessoal e profissional é claramente associado à felicidade, mais do que à alegria.

Pensemos no momento em que uma aluna ou um aluno recebe um teste com uma classificação de 20 valores ou próxima. Pensemos na ocasião em que um adolescente ou adulto encontra alguém por quem se apaixona e de quem sente reciprocidade de sentimentos. Pensemos nos momentos em que uma mãe ou um pai pega ao colo o seu bebé recém-nascido. Não são gargalhadas nem sequer risos que se observam nessas situações, mas antes uma enorme sensação de felicidade.

Há poucos dias, depois de Portugal ter vencido o Festival da Eurovisão, com uma canção muito bonita, tanto na letra como na melodia, sem artifícios para fomentar a alegria, enviei aos meus alunos uma mensagem sobre este tema, da qual recebi retornos muito positivos. O teor da mensagem era o seguinte:

«O fenómeno europeu «Salvador Sobral» parece indicar uma tendência para dar mais valor à felicidade do que à alegria, o que não é habitual na Europa e também é muito raro na faixa etária em que vocês se encontram.

Talvez, devagarinho, possam aprender que os estudos conseguem, em geral, contribuir decisivamente para a vossa felicidade.

Outra coisa que certamente contribuirá profundamente para a vossa felicidade é o amor. Mas aqui fica um conselho: Não desistam à primeira, nem à segunda, nem à terceira, mas não se ponham a «amar pelos dois». Não se deve amar sozinho, pois o amor exige reciprocidade.

Desejo que sejam felizes.»

Para terminar, deixo dois “vivas” à alegria e três “vivas” à felicidade.